Quando olhar para o céu do Brasil
Repara bem que pintou
Alguém que brilha e sorri
Dói de tanto medir a distância
Saber que não vou te tocar
Além da lembrança
A tua falta é sol sem calor
E está aqui mas se foi
Virou estrela, a nossa estrela no céu
Encontrei um moço bem parecido com você no último sábado e por conta disso, desde então, tenho pensado bastante em você. Já há mais de um que não nos vemos e sua amiga aqui está morrendo de saudades!
Tenho estado muito fechada, introspectiva até demais ultimamente e sei que, como você sempre faz ao me ver assim, você vai insistir em descobrir meus pensamentos. Já posso lhe adiantar, meu querido, que repetirei a resposta que você já conhece. Sigo sentindo o peso do mundo em minhas costas e desta vez aliada à desesperança de pensar que, mais uma vez quando parece que tudo via se ajeitar, algo me joga de volta ao fundo do poço. Sim, meu amigo, certamente é mais uma de minhas paranoias, de minhas pirações. Sinto-me cada vez mais louca nesse mundo injusto no qual somos obrigados a fincar os pés na realidade e deixar os sonhos de lado. Me consterna admitir que não ouso mais, que não sonho mais, que não posso ou não quero mais tentar tocar o céu porque a dura verdade da vida é que ele só é atingível para os pássaros ou para as estrelas, e que a única forma que temos de voar é libertando o espírito. Mas não me vejo mais capaz disso. Estou cética. Mais do que nunca. Por mais dolorosa que seja, agora eu só queria as verdades que tanto me prometem. Por ora, só vejo as mentiras. E mentiras me cansam...
Não quero ser forte. Não vou ser forte. Quero ser resgatada, libertada, salva. Nos meus sonhos, seria algo arrebatador, brilhante e divino como um anjo. E parece que posso lhe ouvir me repreender ao ler estas palavras tolas: "não existem anjos por aqui, minha querida; seria uma boa briga, mas eles preferiram cair na estrada ontem à noite". Mas você me conhece bem e sabe que eu sou assim, nego o romance com todas as forças mas no fundo sou uma refém dos heróis de carne e osso. Um imã para aqueles que, como eu, tem planos gigantescos e muito pouca praticidade ou para aqueles que tem a suficiente má sorte de se achar na beira de rio e do nada se perceber no meio do mar revolto.
Sei, meu amigo, que você já passou por muita coisa e te admiro muito por isso. Sei que faço drama frente aos sufocos da vida real mas esta sou eu e você sabe. E preciso de você por perto, me olhando nos olhos, me mostrando que é possível seguir adiante e lutar com orgulho e sem arrependimentos pelo que se acredita.
Você é o meu anjo, meu querido, e preciso de você hoje mais do que nunca. Acho que cabe a você operar esse tal milagre já que meus anjos salvadores por um motivo ou outro me abandonam ou abandonaram. Mas com você é diferente. Você traz a ordem de volta ao meu mundo, deixa tudo no seu devido lugar e nunca, nunca me decepciona. Mesmo quando estamos no limite, na beira do precipício ou no caminho da represa que está prestes e estourar, você sempre sabe que eu preciso de você e você está comigo. Mas agora só mesmo um milagre porque meu coração está arrasado e minha consciência me tortura me obrigando a enfrentar o que é preciso. Eu sou fraca, e não sei o que fazer. Sigo conselhos do mundo e eles estão escritos na areia, mas a maré está enchendo. Só mesmo com um milagre.
Dia desses me chateei. Muito. E quando fico assim, deveras e tão chateada a ponto de registrar publicamente o estado de chateação, eu entro em fossa feroz mesmo, como quem toma um toco. Choro, me tranco em casa, dificilmente atendo o telefone e recorro ao kit de emergência: uma prateleira de DVDs com os filmes mais propícios para meus dias de choradeira (Clube da Luta, Snach, Cães de Aluguel, O Poderoso Chefão e Kill BIll).
Mas parece que admitir a ostrice não é suficiente. O cosmos compreende tal estado de espírito e fica na espreita. Se eu dou mole, já vem o universo dando recadinhos na forma de música e tratando de me manter com o coração apertado. Seja no rádio do vizinho, na trilha sonora da novela, no blip de um conhecido via twitter ou até passando na frente da Casas Bahia. Saco isso!
Eu já intencionava fazer isso há um tempão: listar tais músicas e compartilhar com o mundo o meu “Top Down Songs”. Então, aproveitando que a borocoxice tá passando, seguem as músicas que o mundo sempre toca pra mim quando não me é dignamente possível simplesmente curtí-las, independente do motivo que originou o momento deprê (não necessariamente em ordem e sem preconceito de estilo, ok?). Já vou logo avisando: “chove lá fora e aqui / faz tanto frio”, pra mim, é fichinha perto do que você está prestes a ler.
A mais cliché de todas obviamente estaria na minha lista porque, afinal, sou uma pessoa óbvia e previsível. Não tem o que explicar. E sim, eu sei que a música não composta pra ser romântica. E daí?
“We're just two lost souls
Swimming in a fish bowl,
Year after year,
Running over the same old ground.
What have we found?
The same old fears
Wish you were here”
Ok, talvez Wish You Were Here não seja tão cliché quanto eu pensava se comparado a All by myself. Ouvir essa música em condições normais de temperatura e pressão seria até para chorar de rir tamanha... sei lá, breguice? Mas se você estiver um cadinho fragilizada, aí ferrou. Imagina a pessoa ligando pra todo mundo e ninguém em casa? Triste, minha gente. Muito triste. Dica: é pra cantar junto, aos berros, usando uma garrafa de vodka como microfone e com a maquiagem borrada. Libertador.
“Livin'alone
I think of all the friends I've known
When I dial the telephone
Nobody's home”
A fiel tradução da crueldade e insensibilidade do outro para com você. Olha para trás, seu miserável! Estou aqui chorando, jogada no chão, me humilhando e você ainda tem coragem de ir embora? Ah! Como dói doído. É pra ouvir tomando porre de qualquer coisa que esteja acessível no bar de casa. Mas tenho ouvir com o Phill. Se for com a Mariah tenho vontade de cortar os pulsos, não pela letra, mas pelo que ela fez com a música.
"I wish I could just make you turn around
Turn around to see me cry
There's so much I need to say to you
So many reasons why
You're the only one who really knew me at all"
Essa é terrível porque ela te pega desprevinido. Você ouviu uma vez e se ligou só no no refrãozinho “is it that time / is it that time”. Na segunda vez você lembra “ah, é aquela música de surfista e tal”, mas aí, mais atento, percebe que ela mete um “never thought we'd ever end / I can't afford to lose more friends.” na lata. Nessa hora o estômago embrulha e se engole em seco e se lembra no nome da música. Ferrou...
“I’m just trying to catch my breath.
A heart that beats itself to death,
Panic stricken by the thought
You’re not here for my support.
(But its that time)
Is it that time?
A curtain has to fall.
(Yes, it’s that time)
Is it that time?
The writing’s on the wall.”
Se Night Must Fall engana a alguns, Last Kiss nem se fala. É cilada, Bino!!! O ritmo é bonitinho, parece trilha de filme dos anos 50, mas gente!, a música é uma tristeza só. A pessoa acha a mulher da vida dele e ela morre nos seus braços após um acidente de carro?!?! Ô dó! E eu choro muito. Instantaneamente.
“I lifted her head, she looked at me and said; "Hold me darling just a little while." I held her close I kissed her - our last kiss, I found the love that I knew I had missed. Well now she's gone even though I hold her tight, I lost my love, my life that night.”
É saudade, é culpa, é raiva e é pedido de desculpas. É tudo misturado. E é aquela velha história de cada um acreditando na verdade que lhe convém. Ou fingindo que acredita.
“Mas então, por que eu finjo
Que acredito no que invento?
Nada disso aconteceu assim
Não foi desse jeito
Ninguém sofreu
É só você que me provoca essa saudade vazia
Tentando pintar essas flores com o nome
De "amor-perfeito"
E "não-te-esqueças-de-mim”
Joga na sua cara que você é um merda. Cometeu o pecado mortal de acomodar-se e pôs tudo a perder. Sem mais.
“You cry out in your sleep
All my failings exposed
And there's taste in my mouth
As desperation takes hold
Just that something so good
Just can't function no more”
É o tapa na cara que você queria ter dado mas não teve coragem. Tudo o que queria vomitar sobre quem te arrasou, mas você engole. E você se divide em achar que tem toda a razão do mundo ou é só recalcado por ter sido trocado por outro. E perde o sono.
“'Cause the joke that you laid in the bed
That was me, and I'm not going to fade as soon
As you close your eyes, and you know it
And everytime I scratch my nails
Down someone else's back, I hope you feel itWell, can you feel it?”
Tem dúzias de músicas para se amargurar em períodos de baixo astral e autopiedade. Daria pra citar mais um monte: Se Puder Sem Medo (Oswaldo Montenegro), Everybody Hurts (R.E.M), Trocando em Miúdos (Chico Buarque), Nothing Compares to You (Snead O’Connor), Mentiras (Adriana Calcanhoto), Kaylegh (Marilion), Don't Speak (No Doubt), So Sad About Us (The Who), e por aí vai. Mas as que estão destacadas são aquelas que sempre tocam quando meu coração está um bocadinho mais apertado. É batata. Dorme com um barulho desses...
Muda tudo de novo, mas dessa vez com medo e sensação de derrota. Nem cabe a palavra da moda, desapegar-se, pois pouco tenho ainda ao que me apegar. É desfazer. É sensação de desperdício. É desfazer-se. E evito parar pra pensar. Tudo piora quando penso. Venho e vejo o blog vazio. E constato que ele está assim porque a vida segue um tanto vazia. O coração também. Mantenho o nariz empinado dizendo que não preciso de mais do coração. Nele já tem a família, já tem os amigos-irmãos-queridos-de-todas-as-horas, já tem os outros amigos, já tem o futebol, a música, os livros e o cinema. Mas é balela. Falta a falta de fôlego. Isso eu não posso me dar.
Antigamente vinha aqui confessar, palpitar, compartilhar. Agora fica tudo subentendido nas entrelinhas ou telinhas do twitter e do facebook. A maioria acredita nessa fanfarronice. Mérito meu, que disfarço bem o vazio, ou desatenção delas. Não importa. Algumas poucas pessoas percebem o descabido. Mandam afagos em forma de palavras, beijos, carícias, versos ou prosa que revisito a todo momento e tento me reconhecer no que eles enxergam de mim. Me sinto idiota. Dramaqueen. Penso no tanque de roupa que não tenho pra lavar e concluo que esse é o problema. E fim da análise.
A cada ano que passa, sinto que de 31 de dezembro de um ano para o 1 de janeiro de outro não passa de... uma noite. Vira-se calendário mas continua sendo só um dia após o outro. Não consigo mais me encher de esperanças de que com a mudança de um dígito no calendário minha vida vai mudar. Quero acreditar em novas oportunidades, novos ciclos, mas estou sem energia para tanto.
Entretanto, sei que sou uma pessoa de extrema sorte por ter à minha volta pessoas que não são como eu e, para elas, um novo tempo de renovação e esperança está por começar. E é a cada um de vocês, que abrilhantam meu cotidiano com suas presenças inspiradoras e iluminadas que eu dedico toda a energia que eu consigo capturar do fundo do meu ser para desejar que 2011 seja fantástico, maravilhoso, sem igual, muito melhor do que 2010 e apenas bonzinho se comparado com o que serão 2012, 2013, etc.
Vocês, aqui, no twitter, no Rio ou em Resende, fizeram com que 2010 não fosse completamente inútil e esquecível. Espero retribuir em 2011 ajudando a realizar seus sonhos, compartilhando alegrias ou apenas estando presente quando de mim precisarem. Muito obrigada por existirem!
E ainda não tenho cortinas. Janelas grandes, e a iluminação exterior que enche de amarelo o quarto recém habitado. Soubesse eu fazer poesia, faria. Não sabendo, pedi. E A.B. atendeu. Compreendendo, como sempre, mais do que eu mesma.
Cortinas de Lumiére
Se saudade fosse
sólida como parede
a luz do mundo, lá fora
usaria tal tela
pra contar uma estória
De uma nova chance
Da liberdade
De um canto só seu
De uma música que só você dança
Ela já viu esses sintomas. Nenhuma, ou quase nenhuma, vontade de atender o telefone. Ostrice profunda. Muda os móveis de lugar como se isso mudasse a sua vida sem graça. Não quer sol, não quer rua. Preguiça de tudo. De mundo. Daquela absurda, que não deixa nem trocar o canal da TV.
Não é que ela se arrependa, mas ela sabe que poderia ter feito diferente. Daqui a pouco vai ouvir um comentário inadequado e foge. Ela sempre foge. Muda de mundo mais uma vez. Muita gente boa ficou pra trás porque ela precisou se esconder, se fechar e só perdeu. Perdeu um pouco de si nos outros que sumiram no tempo.
Dia desses tava tudo errado. Deliciosamente errado. Quando vi, tinha ganhado novo pensar vagante. Daqueles que já tive e perdi várias vezes. Mas, principalmente, daqueles que eu adorava não fazer questão porque tava ocupada desocupando a mente, apinhando os dias e frequentando as camas. E foi fácil me deixar errar assim. A cada sábado e domingo. Foi indo, foi indo, foi vindo. A estrada nem cansava, porque tinha o cansar arfante que eu queria durante a breve estadia. Tinha muita risada e ranzinzice. E tinha a porcaria do bolinho de chuva que nunca comi. E aí eu errei. Acho que porque eu nem sei errar direito. Perguntei se tava errada. Não, beibe. Mas a resposta mesmo, certa ou errada, não sei até agora. O certo é que o acerto vai se acertando, se ajeitando. E certos e errados voltam a se ajeitar nas minhas coxas erradamente grossas porque esse é o meu certo. Mas, no fundo, pra mim - ainda - tá tudo errado.
Dizem que Deus fecha portas. Nesse caso ele deixou com que batessem com ela na minha cara. Estou zonza, no escuro e com frio. Procurando a tal janela que deveria estar aberta em algum lugar por aqui...
É muito difícil saber como e por onde começar. Estive pensando por muito tempo e a fundo, através de muitas idéias, tentando encontrar um meio.. Finalmente me ocorreu uma pequena idéia, uma metáfora musical, através da qual pude pensar claramente e encontrar a compreensão, se não mesmo a satisfação. Quero partilhá-la com você. Assim, por favor, peço que me tolere, enquanto passamos por outra lição musical. A forma mais comumente usada para as grandes obras clássicas é a da sonata. É a base de quase todas as sinfonias e concertos. Consiste em três partes principais: a exposição ou abertura, em que pequenas idéias, temas e miscelâneas diversas são lançados e apresentados uns aos outros; o desenvolvimento, em que essas pequenas idéias e motivos são explorados ao máximo, expandidos, muitas vezes passando do tom maior (feliz) para menor (infeliz) e voltando sendo desenvolvidos e entrelaçados em complexidade maior, até que finalmente vem a recapitulação, em que existe uma reapresentação, uma gloriosa expressão da maturidade plena e rica que as pequenas idéias não alcançam através do processo de desenvolvimento. Você pode se perguntar como isso se aplica a nós, se ainda não percebeu. Eu nos vejo embatucados numa abertura interminável. A principio, foi a coisa real, pura delicia. É a parte de um relacionamento em que a pessoa se mostra em seu melhor: divertida, encantadora, excitante, excitada, interessante, interessada. É um tempo em que à pessoa se sente mais tranqüila e mais cativante, porque não experimenta a necessidade de levantar suas defesas; assim, o parceiro aconchega um ser humano afetuoso, ao invés de um cacto gigantesco. É um tempo de prazer para ambos e não é de se admirar que você goste tanto de aberturas que se empenhe em tornar a sua vida uma sucessão delas.
Mas os primórdios não podem ser prolongados interminavelmente; não podem simplesmente serem expostos e re-expostos. Devem seguir adiante e se desenvolverem, ou morrer de tédio. Não é assim, você diz. Deve se afastar, ter mudanças, outras pessoas, outros lugares, a fim de que possa voltar a um relacionamento como se fosse novo, para ter constantes princípios novos. Nós seguimos adiante numa sucessão prolongada de reaberturas. Algumas foram causadas por separações profissionais que eram necessárias, mas se mostraram desnecessariamente duras e rigorosas para duas pessoas tão chegadas como nós. Algumas foram fabricadas por você, a fim de dispor de mais oportunidades de voltar à novidade que tanto deseja. Obviamente, a parte do desenvolvimento é uma anátema para você. Pois é a parte em que você pode descobrir que tudo que possui é uma coletânea de idéias bastante limitadas que não funcionam, não importa quanta criatividade lhes acrescente. Não resta a menor duvida de que fomos muito mais longe do que você jamais tencionou. E paramos pouco antes do que eu considerava como nossos próximos passos, lógicos e maravilhosos. Tenho testemunhado o desenvolvimento com você continuamente contido, passei a acreditar que nunca faremos mais que tentativas esporádicas em nosso potencial de aprendizado, em nossas espantosas similaridades de interesses, não importa quantos anos possamos ter, porque nunca teremos um tempo ininterruptos juntos. Assim, torna-se impossível o crescimento que tanto prezo e sei que é possível.
Ambos tivemos uma visão de algo maravilhoso que nos aguardara. Contudo, não podemos chegar lá, a partir do ponto em que nos encontramos. Estou diante de uma sólida muralha de defesas e você tem necessidade de construir mais e mais. Anseio pela plenitude do desenvolvimento adicional e você procurará meios de evitá-lo, enquanto estivemos juntos. Nós dois ficamos frustrados; você é incapaz de voltar, e eu incapaz de seguir adiante, num estado de constante luta, com nuvens e sombras escuras sobre o tempo limitado que você nos concede. Sentir a sua constante resistência a mim, ao crescimento deste algo maravilhoso, como se eu e isso fôssemos alguma coisa horrível. Experimentar as várias formas que a resistência assume, algumas cruéis, muitas vezes me causa sofrimento, em um nível ou outro. Tenho um registro de nosso tempo juntos e fiz uma análise profunda e sincera. Entristeceu-me a até me chocou, mas foi-me útil para enfrentar a verdade. Recordo primeiro ano e os três primeiros meses como nosso único período feliz. Isso foi a abertura, e foi linda. Depois, houveram as separações, com os desligamentos arrebatados e para mim inexplicáveis e a igualmente terrível evitação-resistêncial em sua volta. Longe e apartados ou juntos e apartados é uma situação por demais infeliz. Estou me observando virar uma criatura que chora muito, pois quase parece que a compaixão é necessária antes que a bondade seja possível. E sei que não cheguei até este ponto da minha vida para me tornar digna de compaixão. Encarando os fatos tão honestamente quanto me é possível, sei que não posso continuar, não importa o quanto deseje; não posso me inclinar ainda mais.
Espero que você não considere isso como o rompimento de um acordo, mas sim como a continuação de muitos e muitos finais que você tem iniciado. Acho que é uma coisa que ambos devemos saber. Eu devo aceitar que fracassei em meu esforço de fazê-lo conhecer as alegrias da afeição. Richard, meu precioso amigo, isto é dito suavemente, até mesmo ternamente, e com amor. E os tons suaves não servem para camuflar uma raiva por trás; são autênticos. Estou simplesmente tentando compreender e estancar a dor. Estou enunciando o que fui forçado a aceitar: que você e eu nunca teremos um desenvolvimento, muito menos a gloriosa expressão climática de um relacionamento desenvolvido ao máximo. Tenho sentido que se alguma coisa em minha vida merece um afastamento de padrões anteriormente estabelecidos, indo além de todas as limitações conhecidas, foi justamente o nosso relacionamento. Suponho que poderia justificar por me sentir humilhada por todos os meus esforços para que desse certo. Em vez disso, porém, sinto-me orgulhosa de mim mesma e contente por saber que conheci a rara e maravilhosa oportunidade que desfrutamos enquanto a tivemos. Dei tudo o que eu podia, no sentido mais puro e elevado, a fim de preservá-la. É o que me conforta agora. Neste momento horrível do final, posso sinceramente dizer que não conheço nenhuma outra coisa que poderia fazer para nos levar ao lindo futuro que poderíamos ter. Apesar do sofrimento, estou feliz por tê-lo conhecido desta maneira tão especial e sempre guardarei na memória o tempo que passamos juntos. Cresci com você e aprendi muito. Sei que também fiz grandes e positivas contribuições a você. Ainda sou sua amiga, como espero que você um dia possa vir a ser meu amigo. Envio esta carta com um coração repleto do mais profundo e terno amor, com toda a consideração que tenho por você, impossível de ignorar, além de um imenso pesar por ficar incumprida uma oportunidade tão cheia de promessa, tão rara e tão bela.
Poderia falar de caminhos Perdidos ou achados Passarinhos que deixam o galho Poderia escrever em veludo A suavidade dos meses que emprestam brilho A esses olhos sonhadores Mas prefiro, amiga minha brincar com palavras e semear sorrisos na boca que não deveriam Jamais ter deixado.
O primeiro impulso foi te escrever de próprio punho. Buscar endereço, código postal e selo. Escolher papel de carta e envelope. Procurar a caneta que não mancha e resgatar a caligrafia redonda e caprichada. Mas aí eu já cansei, como tenho cansado de tudo. Mais verdade seria dizer que tenho me cansado do nada. Aquele vilão da História Sem Fim que cismou de me atazanar a vida.
Não, no alto de sua lindeza você não tem lido tudo errado. Eu odeio escrever ais-de-mim, mas por alguns muitos momentos era só o que me saía dos meus pensamentos tolos para o mundo. Entre aquelas vírgulas e pontos que lhe chamaram atenção, desejei desesperadamente despejar a carência então exagerada pelos 163 quilômetros de complicações fabricadas e pelos dez graus a menos de calor. Foi muito mais forte que eu, amiga, e me arrependo disso. Porque não fosse a distância, era eu que estaria num café cobrando sua presença, lembra? Mas hoje me sinto mais egoísta, mal resolvida e menos generosa. E depois dos seus recados, envergonhada.
Sim, minha querida, me envergonho das minhas fraquezas diante de demonstrações simples de carinho. Me toma inteira o constrangimento imediato daquele que vislumbra a própria tolice. Porque sim, é disso que se trata: são muitas e muitas tolices! Todo esse nada vilão do meu cotidiano se dissipa frente à primeira lembrança dos meus amores. E quantos e tantos maravilhosos são esses amores! Me destrói constatar que, por tão pouco, permito que esses amores desapareçam como que por trás daquela densa neblina avaloniana que maldigo toda fria manhã.
E por isso te agradeço, por essa reprimenda - ainda que involuntária - que me chama o juízo e me esfrega na cara amassada toda a fortuna esquecida. E tomo a liberdade de agradecer-lhe assim, para o mundo ver, porque você também é um desses amores. Daqueles intensos e deliciosos e que não se deve dar o luxo de perder de vista só por causa da distância. Acredite, estou bem. E prometo me lembrar mais vezes disso. Também te adoro, minha querida!
O sofá cansa. A rua não atrai. O sol não se decide. Nada para ver na tv. Nem fome. Nem sono. E um livro travado. Algum conforto nos olhos fechados sob o antebraço. Mas o sofá cansa. Cheiro de ontem. Vontade nem de reticências. Só café. Não esse café. Mas café. Mais café. Talvez mais tarde. Quem sabe. Troca o braço que dormiu antes de você. Mente que está tudo bem. Escuta a música reciclada de um tempo onde tudo era menos complicado. Cheiro de fermento. Presume que é normal. Que todo mundo cansa do sofá. Mas que ninguém quer sair dele. E por isso o mundo parou. Nada se perdeu. Todos sob o antebraço. Deixa estar. Uma hora chega o sinal. Nem que seja o despertador do celular. No próximo dia útil.